19 de outubro de 2012

Deus e os devassos



«[…] Deus sendo puro deixa-se consumir / com a paixão insultuosa / dos devassos».

Regressado de um ano em Nova Iorque, José Tolentino de Mendonça (n. no Funchal em 1965) acaba de publicar “Estação Central”. O título tresanda às américas e, mesmo olhando o mundo do outro lado do Atlântico, Tolentino não desilude. Nova Iorque entra de rompante em quase todos os poemas. Em linha com o que tem sido o seu múnus poético, arrisca diversificar matrizes, partir de acontecimentos novos que a canonicidade poética clássica – ou mesmo moderna – não reconhecia. Tolentino integra-se numa escola poética (e estética) para quem o poema não está desligado do mundo real porque o poema é o mundo real, mesmo se brota de acontecimentos mínimos: estou-me a lembrar de um poema mais antigo intitulado “Concerto dos Tindersticks”.
Para Tolentino, a poesia só faz sentido quando “abraça[m] a impureza que o mundo repudia”. Não faltarão detratores e puristas a acentuar o estilo demasiadamente prosaico, de textos que vivem de snapshots, presentes ou passados, pessoais ou colectivos, reais ou imaginários.
Isto é o que mais me interessa em Tolentino (como em Adília Lopes, Paulo José Miranda, Daniel Faria, Pedro Mexia): este diálogo novo com a contemporaneidade, esta novíssima função poética, uma espécie de epifania dos objetos do quotidiano, mesmo se este é turvado de sombras e se só existe na medida em que existe para o poeta.
 



Sem comentários:

Enviar um comentário