10 de outubro de 2012

Afonso Cruz, a mão feliz


"Isabel nunca gostara de rapazes polidos, de portes urbanos. Preferia homens de feitos de lama e de trabalho, com as unhas sujas de bebedeiras de aguardente caseira, com hálito a metanol. Homens que tivessem mãos que a apalpassem como se tivessem cascos, e que, quando se deitassem em cima dela, respirassem o ar do campo, das pedras, das tempestades e fodessem como uma vara de porcos a passar por cima de um canteiro de lírios."

Afonso Cruz, Jesus Cristo bebia cerveja

Afonso Cruz nasceu na Figueira da Foz em 1971. Estudou nas belas artes, é escritor, ilustrador, cineasta e musico. Ganhou ontem o prémio que a União Europeia, esforçadinha por ser culta, atribuiu salomonicamente a 12 escritores (isto é muito bruxelense). Tem um mérito: foi com este prémio que descobri, nos meus tempos de Bruxelas, Dulce Maria Cardoso que foi premiada em 2009 e lá foi a cerimónia pomposa.

Agora o prémio vai para Cruz que é, em Portugal, um escriba semi clandestino mas também semi renascentista. Só li este Jesus Cristo bebia cerveja (o prémio foi atribuído por A Boneca de Kokoschka) que, sendo desigual, tem trechos de mão felicíssima como o que acima se transcreve e que tem naquela metáfora suína um exemplo de uma imagem que ao mesmo tempo comunga da crueldade e da inocência.

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