26 de outubro de 2012

5 pontos sobre política cultural: e felicidades ao novo SEC


Por causa da mudança de titular na Ajuda, acabei enredado numa discussão sobre o que é "política cultural". Difícil consenso e impossível entendimento. Estranhamente, um domínio onde os pressupostos ideológicos são fortíssimos (e altamente condicionantes) mas os resultados a que se chega têm muito pouco a ver com o ponto de partida. Dito de outro modo: é redutor e falso subsumir a ideia de política cultural ao binómio direita/ esquerda.

Teorizações à parte, eis o que penso em cinco pontos:

1) o domínio cultural é um capítulo onde o Estado tem responsabilidades e obrigações: não apenas como vigilante ou regulador mas como "agente" (e nisto, a minha visão de política cultural afasta-se do que penso de política económica);

2) a aplicação das regras do mercado no domínio cultural dá mau resultado, é pernicioso, embrutecedor e redutor. Exemplo: o Estado não deve apoiar a vinda a Lisboa de Lady Gaga (o mercado aí funciona) mas pode e deve criar condições para trazer uma exposição de Edward Hopper a Lisboa, mesmo que a bilheteira não pague o evento. Lembram-se da ideia da Fundação S. Carlos nos anos 90? Pois...

3) a conservaçao do património é uma linha crucial de ação: somos herdeiros de uma memória histórica herdada que importa preservar como quem guarda um tesouro de família que transmite aos filhos. Mas isso não basta.

4) Num país de estádios e de gadgets, cumpre ao Estado criar condições de aprofundamento da capacidade contemplativa que torne os públicos capazes de se apropriarem de instrumentos que os tornem mais livres, mais capazes de escolher em liberdade e de abrir portas à criação. Ou seja: sim, sou a favor desse papão de alguns comentadores que é a "criação de públicos";

5) sou favorável a uma política activa de apoio aos criadores: cineastas, escritores, artistas plásticos, pensadores. Sou a favor de bolsas e residências artísticas que visem libertar os criadores da fatalidade da mesurabilidade contabilística e os permita serem livres para pensar. Não teve Camões uma tensa? Teve e bem. É admissível que Luiz Pacheco tenha vivido na miséria? Não é no país que paga 50 mil euros por mês ao treinador da seleção nacional.

Podemos decidir não fazer nada disto? Podemos. Como podemos decidir ser porcos, incultos e insignificantes. São opções.

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